Publicação de Centenário Florestan Fernandes é destaque no Valor

Em comemoração ao centenário do ilustre sociólogo, Florestan Fernandes, a Editora Contracorrente irá trazer de volta ao mercado do livro suas obras mais importantes. A coleção Florestan Fernandes irá ser inaugurada com a republicação de “A revolução burguesa no Brasil”.

Neste fim de semana o portal do Valor deu destaque para este evento, numa bela matéria escrita por Jorge Felix. Confira abaixo.

Não há democracia forte em país sem produção fértil no campo sociológico, dizia Florestan Fernandes, que tem reedições de livros em centenário.

O vigor das democracias ou como as democracias morrem é um dos temas mais presentes atualmente no debate político. Vários autores relacionam uma série de motivos para a sobrevivência de uma governabilidade participativa. Uma das causas para a longevidade de sistemas de soberania popular, porém, está ausente desses best-sellers contemporâneos. Já na metade do século passado essa premissa foi apontada por um dos maiores intelectuais brasileiros: não existe democracia forte em um país sem uma produção profícua no campo da sociologia.
Sem conhecer e refletir sobre os temas sociológicos, a origem e a estrutura de si, uma sociedade será facilmente dominada política e economicamente por poderes imperialistas e, no âmbito interno, a maioria da população sempre será oprimida por uma minúscula elite, serviçal, por sua vez, de uma elite global para a qual, por muitas vezes, o voto popular é desprezado em nome de seus interesses. Esse autor foi Florestan Fernandes, morto em 1995 e que completaria 100 anos em 22 de julho.

“Em um momento de tanto obscurantismo e culto à
ignorância, acreditamos que era urgente resgatar as ideias
dele”, diz o editor Rafael Valim

Na comemoração do centenário, a Editora Contracorrente inicia um trabalho hercúleo de reedição das principais obras do fundador da sociologia crítica no país. A data inspirou a elaboração de uma peça de teatro, escrita pelo ator e autor Oswaldo Mendes (do Projeto Arte & Ciência no Palco) com a colaboração do jornalista Florestan Fernandes Júnior, a partir das correspondências entre o sociólogo e o crítico Antonio Candido (1918-2017). “Serão histórias saborosas deles, do exílio, da vida universitária e do país. Não terá um protagonismo do meu pai, mas de dois dos principais nomes da Universidade de São Paulo”, afirma o jornalista.

O primeiro livro da Coleção Florestan Fernandes será “A Revolução Burguesa no Brasil: Ensaio de Interpretação Sociológica”, escrito como uma espécie de resposta – e tentativa de explicação – ao golpe militar de 1964, que completou 56 anos nesta semana.
Na sequência, a coleção coordenada pelo professor Bernardo Ricupero (do
Departamento de Ciência Política da USP) incluirá sua grande obra, “A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá”. Nesse livro, Florestan, de maneira inédita e cientificamente consistente, a partir de seu conhecimento da teoria da organização social, reconstituiu o sistema tribal e conseguiu explicar uma civilização.

As reedições serão enriquecidas com prefácios e material complementar sobre a importância do pensamento do autor. No primeiro livro, André Botelho e Antonio Brasil Junior, ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), assinam a apresentação. Uma entrevista com Gabriel Cohn, ex-diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, onde atuou Florestan, completa a edição.
Farão parte ainda da coleção os clássicos “A Integração do Negro numa Sociedade de Classes” e “Educação e Sociedade no Brasil”, além das obras sobre o exercício da profissão de sociólogo e o papel da sociologia, permitindo, assim, uma revisita das novas gerações ao trabalho de Florestan, cujos livros que circulam hoje pelas salas de aula nas universidades foram publicados na década de 1970, dando a falsa
impressão a jovens estudantes de ser um material datado.
A coleção permitirá às novas gerações de leitores atestarem a difícil construção de uma sociedade democrática e a função da sociologia para erguer esse edifício, sobretudo em países como o Brasil. “Nenhum país da periferia do mundo capitalista terá hoje condições de lutar contra o subdesenvolvimento e a dependência se não for capaz de produzir teoria original no campo das ciências sociais”, afirmou Florestan em entrevista que originou o livro “A Condição do Sociólogo” (1978). “Em um momento de tanto obscurantismo e culto à ignorância, acreditamos que era urgente resgatar as ideias dele”, justifica o editor Rafael Valim, da Contracorrente,
que discutia a coleção havia três anos com o jornalista Florestan Fernandes Junior.

O conjunto da obra de Florestan Fernandes é um painel sobre a ampla diversidade social, cultural e histórica da sociedade brasileira. Na opinião do sociólogo José de Souza Martins, “é o maior e mais refinado retrato do Brasil”.

Essa particularidade faz do autor uma leitura além das fronteiras acadêmicas. Obrigatória para todos que desejam participar do debate político com uma base intelectual sólida. “Não é um retrato impressionista, mas um retrato rigorosamente científico, o primeiro e ainda raro modo de conhecer esta sociedade”, diz.
Ele lembra que Florestan se inspirou na concepção do sociólogo alemão Hans Freyer (1887-1969) de que a sociologia é a autoconsciência científica da sociedade. A obra de Florestan, continua o colunista do Valor, “é obra de cientista erudito, que domina os métodos científicos, tanto os métodos técnicos quanto os métodos lógicos, tanto na pesquisa quanto na explicação propriamente científica. Nada nela escapa desse cuidado”. Para Souza Martins, a obra de Florestan difere de quase tudo que a sociologia brasileira já fez. “A sociologia dele contrapõe o conhecimento científico ao nosso pobre conhecimento de senso comum.”
A erudição do autor é uma das explicações para sua “imortalidade”. “Florestan é uma ilha de sociologia cercada de literatura por todos os lados”, escreveu Antonio Candido, quando convidado a prefaciar o livro do grande amigo. Os dois foram confidentes, cúmplices intelectuais, companheiros de trabalho e mantiveram uma relação de amizade e proximidade. Formaram-se na Faculdade de Filosofia da USP na década de 1940.

“Sempre me impressionaram nele a vastidão e variedade das leituras, bem como o senso artístico; mas, ao mesmo tempo, a capacidade de a sua experiência de leitor e fruidor de arte para esclarecer melhor o seu pensamento de sociólogo e político”, escreveu o crítico.
Essa sensibilidade para equilibrar a erudição e a didática de maneira atraente faz dos livros de Florestan uma leitura sem hermetismo. No atual momento político, quando temas como racismo, diversidade, meio ambiente, desigualdade social, nacionalismo, imperialismo, patriarcado, feminismo e tantos outros frequentam, sem cerimônia, as redes sociais e as discussões familiares, Florestan oferece luz e argumentos para esse ambiente de conflitos, muitas vezes provocado por deficiências na compreensão de construções ou conceitos sociológicos.
Uma das maiores provas da vitalidade da obra de Florestan é o sucesso editorial do sociólogo Jessé Souza, autor do best-seller “A Elite do Atraso” e um seguidor de sua tradição teórica. Em sua releitura crítica dos intérpretes do Brasil, Souza aponta as lacunas deixadas por Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), Gilberto Freyre (1900-1987) e outros pensadores contemporâneos que, segundo ele, foram vítimas de
uma visão colonizada, culturalista ou meramente economicista, marcada por um complexo de inferioridade intelectual. Florestan foi o primeiro sociólogo, na opinião de Souza, que “avança na questão de refletir sobre a reprodução simbólica do capitalismo periférico”.
Um dos principais livros de Jessé Souza, “A Construção Social da pubcidadania” (reeditado pela Leya em 2018), é um diálogo com “A Revolução Burguesa” e outrotítulo importante, “A Ralé Brasileira: Quem É e Como Vive” (reeditado pela Contracorrente em 2018), é um parente próximo de “A Integração do Negro na Sociedade de Classes”, trabalho referencial de Florestan.
“Ele foi, na verdade, o primeiro cientista social brasileiro, com grande formação teórica, a perceber a sociedade brasileira a partir de baixo, ou seja, com o olhar do oprimido”, afirma. “A reedição de suas obras, neste momento, é tempestiva.”
E o que seria perceber a sociedade a partir de baixo? Florestan, segundo Jessé Souza, colocou a sociologia brasileira em outro patamar de sofisticação. As ciências sociais deixam a dimensão da “sociologia espontânea”, da visão convencional que interpreta as relações sociais sob o paradigma da intencionalidade individual ou da herança cultural do tipo “se meu avô era português, eu também sou”.
Florestan inaugura a dimensão da eficácia institucional. “O comportamento prático cotidiano só pode ser devidamente explicado e compreendido por meio da eficácia das instituições – seus prêmios e castigos que constrangem o comportamento dos indivíduos em dada direção sem que eles mesmos percebam conscientemente -, e nunca pela ação intencional dos próprios indivíduos percebidos ingenuamente como autônomos ou livres”, diz Jessé Souza.

Foi por conta dessa ingenuidade pré-sociológica que outros intérpretes do Brasil, de tradição colonizada ou economicista, imaginaram um Brasil filho de Portugal, ignorando a grande “instituição” que marcou nossa origem: a escravidão. Freyre apostou em uma convivência harmônica. Buarque de Holanda acreditava que o Brasil continuava o mesmo depois do capitalismo comercial, do Estado centralizado e da urbanização. Raimundo Faoro (1925-2003) centralizou sua análise no patrimonialismo. Florestan, destaca Jessé Souza, quebrou essa mesmice que só fazia reproduzir interpretações vulgares para justificar nossa estrutura social e nossas desigualdades.
“Ele é, neste sentido, o grande contraponto à tradição elitista, ainda hoje
hegemônica, que se constrói com Sergio Buarque de Holanda e vai até Fernando Henrique Cardoso e vários outros, baseada na lenga-lenga manipuladora da corrupção apenas da política como questão principal do país”, diz Souza.
Durante muito tempo, Fernando Henrique foi o principal discípulo de Florestan. Sob a liderança do mestre, o ex-presidente tornou-se um “sociólogo de campo”, ou seja, um pesquisador em locais como favelas e bairros pobres desde os anos 1950. Foi Florestan quem ensinou Fernando Henrique a fazer uma sociologia, durante o mestrado e o doutorado, a partir do olhar de setores não dominantes da sociedade.
Como seus mentores nos tempos de formação, ao lado de Florestan estavam os sociólogos Fernando de Azevedo, também da USP, e o francês Roger Bastide, com os quais o ex-presidente participou de pesquisas nos cortiços da cidade de São Paulo.
“Sua influência foi decisiva. Não apenas como professor de muitos de nós, mas como ícone de comportamento moral e intelectual”, afirma Fernando Henrique.
Sua relação com Florestan sempre foi quase de pai e filho. A ponto de, quando a ditadura militar (1964-1985) empurrou o então jovem professor para fora da USP e, depois, para o autoexílio, em Paris, Florestan convocou um substituto, o hoje professor emérito Sedi Hirano, mas com um aviso: “Se o Fernando voltar, você sai”.
Florestan só não sabia que teria menos influência sobre o seu orientando quando ele fosse para a práxis. No campo político, Fernando Henrique recusou o Partido dos Trabalhadores, partido que teve em Florestan um dos fundadores e pelo qual foi deputado federal. O aluno chegou ao cargo mais alto do país no ano da morte do mestre. Mas, àquela altura, o então presidente já optara por uma agenda social bastante diversa das preocupações políticas às quais Florestan seria fiel até o último dia de vida.
Um dos principais pontos dessa agenda era a transformação social. A revolução social era um de seus temas mais frequentes. Toda a sua produção – e os leitores poderão verificar nas novas edições da coleção – está impregnada de um estilo de reflexão que questiona a realidade social e coloca em xeque uma determinada sociologia que insistia em interpretar essa realidade como natural. É um questionamento a partir da raiz da sociedade brasileira, isto é, o papel de índios, europeus, negros, imigrantes e suas metamorfoses em classes sociais ou castas a partir da emergência do capitalismo local.
Florestan, assim, estabelece um diálogo com outros sociólogos, como Buarque de Holanda, Freyre e também Sílvio Romero (1851-1914) e Oliveira Viana (1883-1951) e teses de Caio Prado Júnior (1907-1990), Euclides da Cunha (1866-1909) ou Manoel Bomfim (1868-1932) como se perguntasse, a todo momento, a esses autores: será que o Brasil é isso mesmo?
“Ele vai sempre além do que está dado como estabelecido, como explicado. Ao submeter o real e o pensado à reflexão crítica, descortina as diversidades, desigualdades e antagonismos, apanhando as diferentes perspectivas dos grupos e classes”, definiu outro de seus seguidores, o sociólogo Octavio Ianni (1926-2004).
Esse estilo de pensar fora do padrão de civilização dominante – ou uma imaginação sociológica muito peculiar – é empreendido paralelamente a uma constante defesa do ensino público e da construção das balizas da profissão de sociólogo. Sua imaginação conseguiu definir um relacionamento possível, no dizer de Antonio Candido, entre o desafio da objetividade científica e a militância política.
A “escola” de Florestan Fernandes, diferentemente do vitupério dos críticos ou do que alguns poderiam dizer hoje, não permitia ideologia em sala de aula. Todos os argumentos exigiam uma prova científica, mesmo que a verdade objetiva fosse descartada.
Inúmeras e relevantes são as obras sobre o papel do sociólogo e sua indispensável participação na consolidação da democracia, como, principalmente, “Fundamentos Empíricos da Explicação Sociológica” e “A Sociologia numa Era da Revolução Social”, que integram a coleção da Contracorrente.
“Durante os anos da ditadura militar, foi um ativo participante de movimentos de defesa da educação pública, dos direitos civis, políticos e sociais e da democracia”, afirma a professora Angela Alonso, da USP. “Florestan se tornou uma referência dupla, intelectual e política, para a sociologia brasileira. Ao longo de sua carreira acadêmica tornou-se um dos principais consolidadores da sociologia universitária no Brasil”.
O público poderá conhecer ou recordar o pensamento sociológico crítico de
Florestan e entender melhor os princípios para a existência de uma democracia pujante, pois as palavras do autor, como resumiu Antonio Candido, “são como a poesia de Mário de Andrade: o Eu que fala é um ser individual mas é também o Brasil”.