Centenário Florestan Fernandes: entrevista com o Prof. Bernardo Ricupero

A Editora Contracorrente, em parceria com a Kotter Editora, tem a honra de trazer de volta ao mercado literário as obras de Florestan Fernandes. Para abrir a coleção, que sai em comemoração ao Centenário de Florestan, será lançada a obra “A revolução burguesa no Brasil”, de primordial importância na bibliografia da sociologia brasileira.

Enquanto o livro está em pré-venda, trazemos para vocês uma entrevista com Bernardo Ricupero, o coordenador dessa coleção tão aguardada pelos leitores e estudiosos.

1 – Fale um pouco de Florestan Fernandes, e de como a obra dele teve influência em seus estudos e carreira. 

Florestan Fernandes é, em primeiro lugar, um intelectual de trajetória singular no Brasil. Num país em que as diferenças sociais são tão marcadas – diria Florestan, com resquícios “estamentais” – veio “de baixo”, sendo filho de mãe solteira, que teve estudos bastante irregulares até chegar à universidade. Mesmo assim ou até por isso, é um dos nomes mais importantes das ciências sociais brasileiras, tendo contribuído como poucos para que elas assumissem um padrão de trabalho rigoroso e se institucionalizassem. Além disso, seus estudos e os trabalhos que orientou na cadeira de Sociologia I da Universidade de São Paulo (USP) foram importantes para que personagens até então pouco estudados – como índios, negros, imigrantes, etc. – ganhassem espaço no pensamento brasileiro.

Afastado da universidade pelo AI – 5 e exilado, passou a ter uma atuação cada vez mais política. Retomou e aprofundou o estudo de temas sobre os quais já vinha investigando, como as agruras do capitalismo dependente no Brasil e na América Latina, numa perspectiva de transformação revolucionária. Foi deputado constituinte pelo Partido dos Trabalhadores (PT), em 1986, sendo reeleito na legislatura seguinte.

 Em suma, tanto no pensamento como na atuação de Florestan percebe-se um firme compromisso com os “de baixo”, somada a uma exigência muito grande com o trabalho intelectual e político.

No meu caso particular, lembro-me, antes de mais anda, da dificuldade de ler Florestan. De, com vinte e pouco anos, praticamente ter que decifrar cada parágrafo de seus trabalhos, impregnados de conceitos. Em compensação, recordo-me também da satisfação, finada a leitura, de entender textos muito demandantes e imprescindíveis para a compreensão da sociedade brasileira. Desde então, a obra de Florestan não tem me abandonado, sempre dando aulas e escrevendo sobre ela.     

2 – Como está sendo a experiência de coordenar a reedição das obras de Florestan Fernandes? 

Recordo-me que Florestan Jr., logo que me procurou para participar do projeto, destacou como queria trazer seu pai de volta para o debate público brasileiro. Diria que é essa a intenção primordial por trás da coleção, já que Florestan está fazendo muita falta. Seus temas – como índios, negros, desenvolvimento, socialismo, etc. – ainda são os nossos temas. Mais do que isso, vale voltar a Florestan para entender melhor essas questões e buscar, efetivamente, criar uma sociedade democrática no Brasil, como sempre quis.  

Os livros da coleção trarão, como já ocorre com o primeiro, prefácios de jovens pesquisadores e como posfácios entrevistas com grandes especialistas em Florestan Fernandes. É também objetivo da editora Contracorrente mesclar a edição de trabalhos mais conhecidos, como os estudos sobre os Tubinambá e as relações raciais em São Paulo, com trabalhos menos renomados, como Educação e Sociedade no Brasil, livro publicado apenas em 1966 como resultado da militância, pouco antes, de Florestan na campanha pela escola pública.

3 – Sabemos da importância e do impacto da obra “A revolução burguesa no Brasil”, mas qual a importância de trazer essa obra de volta no momento atual? 

Diria, em poucas palavras, que o momento atual lança nova luz sobre A revolução burguesa no Brasil e, em compensação, A revolução burguesa no Brasil pode ajudar a compreender o momento atual. É interessante como o livro começou a ser escrito por Florestan como uma resposta intelectual ao golpe de 1964. Buscou, em especial, mostrar como o evento está relacionado com uma dominação de classe arraigada no Brasil e em países capitalistas periféricos, que chamou de autocracia burguesa. Tal interpretação contrastava com muitas das análises da época, que destacavam como nosso país e outros passavam por situações autoritárias.

Posteriormente, com o avanço da democracia política e da justiça social, A revolução burguesa no Brasil parecia ser desmentido. No entanto, acontecimentos recentes indicam a perspicácia da interpretação de Florestan. Chama a atenção, em particular, como a forma que a revolução burguesa assume no Brasil é sem ruptura com o passado, os novos grupos dominantes sentido atração pelos antigos grupos dominantes. Em outros termos, a burguesia, ao reproduzir o horizonte cultural da oligarquia, passa a ser marcada por interesses particularistas, privilegiando a repressão ao escravo e ao proletariado como eixos de sua ação.

Não é preciso muita argúcia para perceber como a eleição de Jair Bolsonaro e o posterior apoio de parte significativa da burguesia do país ao presidente, como indica o entusiasmo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) com seu governo, insere-se nesse padrão autocrático de dominação burguesa.      

Bernardo Ricupero: possui graduação em Ciências Sociais(1993), mestrado em Ciência Política (1997) e doutorado em Ciência Política (2002) pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado pelo Colégio do México (2014). É professor doutor da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em História do Pensamento Político, atuando principalmente nos seguintes temas: pensamento político brasileiro, pensamento político latino-americano, marxismo, nacionalismo e romantismo.

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